Segurança e saúde dos motoristas profissionais que trafegam nas rodovias do Brasil
Jornadas de Trabalho dos Motoristas de Caminhão
Mundialmente, a maior parte dos caminhoneiros enfrenta uma jornada de trabalho
irregular ou em turnos e permanece acordada mais de 18 horas/dia. Estudos indicam que
tempo acordado maior que 19 horas reduz o desempenho psicomotor e é equivalente a
altas quantidades de álcool no sangue2,8. Um exemplo de trabalhadores de turno irregular
é o motorista de caminhão autônomo ou não assalariado que perfaz jornadas superiores a
12/14 horas em horários irregulares e em turnos diversificados, com poucas horas de sono
(4 a 6 horas). Já o motorista que trabalha em turnos alterna seus horários de trabalho de
acordo com uma escala pré-estabelecida pela empresa. Nesses dois casos, na maioria das
vezes, ocorre inversão do ciclo vigília-sono15, o que prejudica a qualidade do sono, tornando-o
insuficiente e com presença de repetidos despertares18.
Leis estabelecidas por alguns países da América, Europa e Austrália
Pesquisadores têm desenvolvido estudos sobre as jornadas de trabalho dos motoristas
profissionais em várias partes do mundo. De forma geral, os países aplicam as leis ou
regulamentações a fim de dirimir o cansaço e a fadiga desses trabalhadores, reforçando
intervalos de descanso e limitando as horas ao volante. A Tabela 1 descreve os aspectos gerais
das leis de trabalho referentes aos motoristas de transporte de cargas da União Europeia e
de países como Estados Unidos, Austrália e Canadá.
No Brasil, as leis de trabalho referentes ao tempo de condução e de descanso do motorista
profissional sofreram alterações ao longo de três anos (Tabela 2). O tempo de condução
aumentou de 4 horas para 5h30 (Leis 12.619/2012 e 13.103/2015, respectivamente). Será que
uma hora e meia a mais sem pausa para descanso pode prejudicar a atenção e a vigilância
dos motoristas? Estudos recentes constataram alta prevalência de sonolência ao volante e de
acidentes com motoristas que dormem pouco e dirigem por muitas horas sem descanso8,17.
Pesquisas com motoristas colombianos e da Nova Zelândia mostraram que o excesso de
horas de trabalho (> 12 horas) ao volante e duração de sono menor que 6 horas são fatores
de risco para fadiga e acidentes9,22.
Em relação ao revezamento dos motoristas durante a viagem, a lei antiga assegurava o
repouso dos motoristas com o veículo estacionado. A nova lei, porém, designou que os
motoristas podem dormir com o veículo em movimento. Como obter um sono restaurador
com o veículo em movimento? A National Sleep Foundatione
recomenda dormir de acordo
com a necessidade biológica, sem fragmentar o sono e em ambiente livre de perturbações.
Dessa forma, observa-se que a legislação vigente desconsidera essas ações quanto ao aspecto
de qualidade, eficiência e higiene do sono durante o período de descanso.
Com isso, constata-se que as alterações regulamentadas na Lei 13.103/2015 contribuem
para maior tempo de jornada de trabalho e redução do tempo de descanso, prejudicando
o sono restaurador, a atenção e o estado de alerta dos motoristas, o que pode causar
sonolência e acidentes.
Fonte: http://www.scielo.br/pdf/rsp/v51/pt_0034-8910-rsp-S1518-87872016050006761.pdf
Nenhum comentário:
Postar um comentário